Let’s rock?

Para quem ouve, música pode ser muitas coisas, desde declaração de amor e reinvidicação social até culto religioso e entretenimento puro, mas para quem faz músicas são tão produtos como um sabonete ou uma lata de refrigerante. Bandas e produtoras ganham dinheiro a partir da venda dessas músicas, seja em CDs, DVDs, shows, camisetas ou em comerciais publicitários, e esse dinheiro é o “salário” desses profissionais.

Desde criança ouço pessoas criticando músicos, especialmente bandas de rock, por “se venderem ao mainstream”, abrindo mão de seu estilo único e mudando completamente para se adequarem a um público mercadologicamente mais interessante, vendendo mais e mais.

Ah, quantos CDs já não baixei (não, não comprei) e me deparei com uma banda diferente da do último álbum. CDs com 10 músicas feitas em um estilo totalmente novo e inesperado e apenas 2 ou, com sorte, 3, no molde já conhecido. Ainda assim, não nego: alguns desses estilos novos passaram a me agradar depois de algum tempo… mas vejo como duas bandas diferentes. E a primeira era melhor (mas é tudo muito pessoal nessa questão).

Com a Internet a quantidade de CDs e DVDs vendidos entrou em um declínio sem volta, e essa sempre foi a maior fonte de renda do meio musical, tanto que é daí que surgiu toda a questão de combate a pirataria, downloads ilegais, downloads pagos e conteúdo exclusivo. Já reparou que desde sempre existem os cambistas, mas nunca brigaram tão arduamente contra eles como brigam por essas questões virtuais?

Tentando resolver de uma só vez o problema da “venda ao mercado” e o prejuízo financeiro causado pelos downloads ilegais, algumas bandas começaram a usar a Internet para se aproximar de seus fãs e atender a seus anseios. A proposta é descobrir o que eles gostariam de ouvir, como o querem e quanto achavam justo pagar por isso.

Através de ações desse gênero, todas com fundamento colaborativo (Web 2.0), os alemães do Einsturzende Neubauten tiveram seu álbum Alles Wider Offen inteiramente patrocinado pelos fãs, o Radiohead deixou o preço do seu novo álbum em aberto, com os fãs decidindo quanto pagariam por ele, e o Nine Inch Nails conseguiu mais de 1,5 milhão de dólares com um álbum viral.

Nessa era de integração digital, excesso de informação e alta disseminação de conteúdos, surgiu também o questionamento sobre a razão para uma banda surgir. É pelo dinheiro? Pela paixão por essa arte? Pela fama? Muitos especulam sobre bandas sendo criadas por uma nova razão: representatividade musical de marcas.

Uma banda criada pela Doritos, pela Ford, Unilever, Ambev,…! Imaginem bandas com patrocínio institucional oficial dessas marcas, criando músicas aos seus públicos de interesse, com conteúdo condizente com a filosofia de cada empresa, e sem preocupações financeiras (afinal, a banda vai ser uma publicidade dessas marcas, não precisam dar lucro com CDs, bastam valer a pena pra aumentar as vendas dos produtos já consolidados).

Só resta saber se é realmente possível estabelecer uma relação sustentável e natural entre o âmbito emocional e o financeiro dos artistas. Será fácil lidar com essa Web 2.0 e produzir as músicas que lhe pedem, não mais as que você sente vontade de fazer durante o banho? E será prazeroso viver patrocinado, sem crises financeiras, mas completamente vendido? É uma tarefa extremamente árdua estabelecer um ponto de equilíbrio entre o a autenticidade de uma banda e os ganhos financeiros decorridos disso.

Bom, o lance é relaxar e curtir o que temos. Ao menos, eu penso assim nesse momento.

“A imprensa musical está totalmente longe do que os garotos querem ouvir. Esses garotos trabalham em fábricas seis dias por semana, e querem se divertir, beber, e agitar nos fins de semana. Nós damos esta oportunidade a eles” – Bon Scott, AC/DC

Roger Stephan

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